Renata Rech
Volta e meia me pergunto por qual motivo as pessoas boas quebram a cara no amor. Vejo tanta gente bacana e do bem se ferrando e fico sem entender. Quer um exemplo? A moça que trabalha aqui em casa é honesta, batalhadora, trabalha de segunda a sexta e tenta oferecer uma vida boa e confortável para os dois filhos. Recentemente ela passou por uma situação muito comum: foi traída pelo marido. Ele saiu de casa, olhou pra ela com olhos alegres e disse não-tô-mais-a-fim. O mundo dela se partiu em noventa pedaços. Doída, aceitou o fim. Perdida, tentou encontrar o melhor caminho. Decidida, cortou o cabelo, renovou a cor, comprou roupas novas. Bem resolvida, arrumou um ficante. Ele, por sua vez, saiu de casa direto para a casa da nova mulher.
No começo, ela sofreu demais. Acompanhei cada detalhe da história. Assustada, me coloquei no lugar dela. Não sei se teria tanta força. É difícil aceitar um golpe desses. Um cara que te conhece desde os 15 anos. O primeiro e único homem. Um cara que te ofereceu sonhos e te deu filhos. O homem da tua vida. Que se transformou em um estranho. Que virou a tua vida de cabeça para baixo. Que resumiu todos os anos de casamento a uma frase: não-tô-mais-a-fim. Como se fosse um namorico de 2 semanas. Como se fosse um nada.
Ainda me choco com as coisas. Tudo bem, eu sei que um dia as coisas podem acabar. Sei que um dia o amor pode ir embora. Mas ele tem que ir com decência. Com clareza. Com honestidade. Com franqueza. Com respeito. Se você não ama mais, diga. Converse. Explique. Se abra. Vai doer, vai ser difícil. Mas vai ser muito mais humano do que simplesmente não-estar-mais-a-fim e procurar um outro corpo, uma outra boca, um outro coração, um outro abrigo.
Como pode alguém jogar tudo no lixo sem a menor cerimônia? Sem nem ao menos pensar em tudo que foi construído a dois. Sem pensar no que foi batalhado e suado. Nas partes boas e ruins. Sem colocar a relação na balança e ver pra que lado ela se inclina mais.
Minha posição em relação à traição é muito clara. Sou contra. Acho abominável. Nunca traí e espero, de verdade, não ter sido traída. Ouço muita gente dizer que é que nem futebol “quem não faz, leva”. Que “do corno e da morte ninguém escapa”. Quer saber? Sei que a morte é inevitável, mas queria sair dessa vida escapando do corno. Deve ser uma das piores sensações do mundo. Se sentir trocada. Deve moer o coração, esmigalhar a autoestima.
Acredito, sim, que uma relação consiga se basear na fidelidade e na lealdade. Acredito, sim, que um homem e uma mulher podem permanecer juntos sem uma traição no meio. E acredito mais ainda no seguinte: é claro que existem instintos. É claro que existem pessoas que se destacam pela beleza. É claro que a gente olha. Mas olhar é uma coisa. Fazer é outra bem diferente. Se imaginar fazendo é outra mais diferente ainda.
Tem mulher que não quer um relacionamento. Tem homem que não quer um relacionamento. Querem sair, querem diversão, querem sexo, não querem compromisso. Até aí tudo bem. Até aí tudo numa boa. Até aí acho saudável e natural, afinal, a vida é feita de momentos e fases. Eu já tive a minha fase de curtir, hoje sosseguei e quero (e gosto) de ser uma mulher casada. A partir do momento em que você tem um relacionamento (seja ele namoro, noivado, casamento) você tem que tratar a relação e a pessoa com respeito e consideração.
Não sei se um dia vou entender por qual motivo as pessoas boas e bacanas quebram a cara no amor. Mas uma coisa eu sei: o mundo gira sem parar. E tudo, tudinho mesmo, que a gente faz de uma forma ou de outra acaba voltando pra gente. Por isso, é bom ter muito cuidado com as nossas ações diárias e quem a gente magoa.
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