1° de setembro de 2010
Tio,
Acho que essa é a primeira vez que te escrevo alguma coisa que não seja dedicatória de livro ou cartão de Natal. Mas no dia em que o Corinthians completa 100 anos de vida, eu precisava te agradecer. Agradecer por você ter entrado para a família Martin há 41 anos, quando se casou com a titia, irmã da minha mãe.
Foi naquele mês de julho de 1969 que você nos trouxe de presente o seu corinthianismo. Que você carregou para dentro da nossa família os seus cadernos de anotações com todas as partidas que o Corinthians tinha feito desde a década de 1950. Suas camisas antigas, suas bandeiras amareladas, seus recortes.
Foi naquele mês de julho que você trouxe para os Martin as histórias de quem teve o privilégio de passar a infância fugindo da escola para ver Cláudio, Baltazar, Luizinho, Rivellino e tantos outros mestres. E você ainda era um sortudo que morava ao lado do Pacaembu.
Lembra quando a sua mãe te achou na arquibancada e te tirou do estádio carregado pelas orelhas? Ou quando Lauro D’Ávila, amigo do vô Juca, começou a compor o hino do Timão na sua casa de praia, na Praia Grande? Eu me lembro e nem estava lá.
Obrigada, tio, não só por compartilhar essas histórias, mas por ter levado meus pais ao Morumbi naquela final de 1977. Se minha mãe já era corinthiana, tudo ali ficou ainda mais evidente: a arquibancada era o nosso lugar. E, logo você que nunca teve muita paciência com a bagunça da criançada da família, me pegou pela mão ainda pequena e me levou ao Pacaembu pela primeira vez. De arquibancada também, no meio das bandeiras de bambu, dos Gaviões, de tantos outros corinthianos desconhecidos, mas tão iguais. Me comprou um picolé de limão, me levou para ver Neto, Ronaldo, Fabinho, Guinei, Tupãzinho, Wilson Mano e Márcio.
Sabe, tio, eu nunca mais fui a mesma. De lá para cá, o Corinthians me trouxe tantas coisas que é até difícil me lembrar de todas elas. Eu sou mais humana por causa do Corinthians, sou de verdade, sou de carne e osso. Sei rir, sei chorar, sei festejar, sei me emputecer, sei esbravejar, sei me emocionar. O Corinthians me ensinou a me emocionar sem ter vergonha. A chorar na frente de um monte de marmanjos sem pudores, a aparecer na televisão aos prantos, a enxugar minhas lágrimas na camisa de um desconhecido. Lágrimas de alegrias e de tristezas. O Corinthians me ensinou a intensidade. Tudo é grande demais nessa família (e agora falo de Martins, de Nascimentos, de Silvas, de Santos, de Souzas, de Zukauskas, de Cunhas, de Gonzagas, de Didarios, de Freitas, de Mirandas, de Limas, de Pereiras, de Pachecos, de Lorenzos, de Camargos, de Parras, de Barretos e de outros 30 milhões de sobrenomes).
O Corinthians me deu tantos amigos (e também tantos inimigos, mas hoje não é dia de lembrá-los), tantos domingos, tantas quartas-feiras, tantas oportunidades de conhecer lugares, pessoas e outras histórias como as suas. O Corinthians me fez ser rebelde, mas também me trouxe calma, me deixou ansiosa, me deixou tranqüila, me fez perder noites de sono, me fez dormir sorrindo, me tirou a fome, me deu vontade de encher a cara. O Corinthians me fez pensar demais e me fez perder a razão. Me deu o céu e me deu o inferno e eu acho que é assim que se vive pra valer.
E tudo isso porque naquele dia que eu não me lembro, contra um adversário que eu também não me recordo, você teve a delicadeza de comprar um ingresso para mim, me colocar dentro do seu Opalão e me levar para ver o Corinthians no Pacaembu. O que ficou foi o Corinthians. Foi a torcida. Foi aquilo que eu senti e que sinto até hoje, toda vez que tem jogo do Timão.
Sei que a gente tem que agradecer quem começou tudo isso também e sou profundamente grata aos cinco operários do Bom Retiro: Joaquim Ambrósio, Antônio Pereira, Rafael Perrone, Anselmo Correa e Carlos Silva. Mas foi você quem trouxe o Corinthians para a minha vida, para o meu dia-a-dia, para a minha formação. Por isso que ontem, quando todo mundo já comemorava o Centenário, eu tive que ir te dar um abraço, mas não consegui te dizer nada disso. Te agradeci por tudo o que fez por mim, mas talvez você não tenha a dimensão do que seja esse tudo. É tudo, de verdade. É a parte mais importante. É a que eu mais me orgulho.
Obrigada.
Com todo o amor do mundo, um beijo em preto e branco.
Lelê
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Aproveito esta carta aberta para agradecer a outras três pessoas fundamentais para o meu corinthianismo:
Mãe, sei que não é fácil abrir mão de ter uma filha bailarina, de roupas bonitinhas, que se veste direitinho, que se cuida para sair. Sei que não é fácil ter uma filha que vive futebol, que se mete em enrascada, que vai viajar para ver jogo, que é de torcida organizada, que sai correndo do almoço de domingo pra ver o Corinthians. Mas a sua compreensão e o seu apoio foram mais do que fundamentais. Te amo muito e muito obrigada.
Pai, obrigada por me ensinar a secar os adversários com nossas figas e sei que elas são mesmo decisivas. Valeu por me ensinar o que é ter fé, por me fazer companhia em tantos jogos, por não gritar gol antes como a maioria dos senhores que freqüentam estádios. Também te amo.
Lucas, obrigada por nascer corinthiano, por continuar a minha história pelos próximos cem anos, por aprender tudo o que a mamãe te ensina sobre o corinthianismo e colocar em prática tão direitinho. Obrigada por você ser meu companheiro todos os dias, por se empolgar tanto para ir ao jogo do Coringão, por ter aprendido a amar esse time tanto quanto a mamãe o ama. Obrigada por ser esse menino feliz que também vive tudo tão intensamente. Te amo mais do que tudo.





















