No capítulo anterior (e em todos os outros), a mãe da Rebecca, a Rebecca e a família toda da Rebecca pressionaram o Lucas para que ele fosse brincar na casa delas depois da aula. Não que ele precisasse ser pressionado para sentir vontade de brincar lá, porque para qualquer criança o lugar mais legal do mundo é a casa dos outros. Eu me lembro que quando eu tinha a idade do Lucas, felicidade era brincar na casa da vizinha, com os brinquedos da vizinha e, de preferência, sem a pentelha da vizinha. Felicidade plena era dormir na casa da vizinha ou de qualquer coleguinha da minha escola.
Na segunda-feira, combinei tudo com a mãe da Rebecca: ela o pegaria depois da aula na terça-feira e ele passaria a tarde toda lá. No fim do meu expediente, eu o buscaria, sem nenhum fio de cabelo na cabeça tamanha seria a minha preocupação de ter virado avó aos 27 anos.
No dia seguinte, cada uma de nós cumpriu a sua parte e às 18h30, pontualmente, eu toquei o interfone para chamá-lo. O prédio onde a Rebecca mora é bem próximo ao meu, mas bem diferente do meu. O dela é daqueles novinhos em folha, com o pé direito altíssimo (e o pé esquerdo mais alto ainda) e apartamentos com metros quadrados a perder de vista. Um prédio típico dos últimos anos aqui na Pompéia, que tem dividido o bairro em dois: os multimilionários da elite e os favelados da classe média. Eu estou no grupo dos jornalistas, logo abaixo.
Quando eu vi o prédio, até comecei a gostar da ideia daquele namoro porque eu tenho três opções de enriquecer:
a) Casar com um homem rico;
b) Ganhar na Mega Sena;
c) Torcer para meu filho casar com uma mulher rica e generosa.
Considerando toda a sorte que eu tive em 27 anos e o fato de eu namorar um corinthiano-motoboy-da-ZL, quase subi para acertar o compromisso definitivo entre Lucas e Rebecca. Mas me lembrei que ela era de família judia praticante e enterrei meu sorriso no fundo da minha eterna pobreza.
Foi a Rebecca quem desceu até a entrada do prédio acompanhando o Lucas e ficou olhando-o até que ele se perdesse de vista.
**
A princípio, o Lucas não queria dar muitos detalhes de como tinha sido a tarde na casa dela. Até achei que ele tivesse descoberto o blog e nunca mais fosse me contar nada, mas ele acabou confessando:
- Foi legal…
Assim, meio xoxo, nada muito empolgante.
- Só legal?
- Ah, brincamos bastante. O prédio é bem legal: tem quadra, salão de jogos, piscina. Um menino chamado Lucas acertou uma bolada na minha cabeça que doeu muito.
- E a família dela? Conheceu o pai dela?
- Conheci. Ele foi bem legal e ele é corinthiano também.
- O que você almoçou? – minha mãe fez uma típica pergunta de avó.
- Arroz, feijão e carne.
- SÓ?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!? – minha mãe fez uma típica expressão de avó.
**
De noite, como faço todas as noites, li para ele antes de dormir e ele se queixou de uma dor na boca:
- Está sangrando, mãe?
- Não, Lucas! VOCÊ NÃO BEIJOU NA BOCA, NÉ?????????? – fui meio imbecil, confesso.
- Não, mãe. Tá louca?! Acho que machuquei a minha gengiva.
Depois da história do Capitão Cueca, ele me deu um beijo carinhoso e fez planos para voltar outras vezes na casa da Rebecca. E dormiu sorrindo.
**
Desde que esta história começou, no início de fevereiro, eu tenho pensado bastante em todos os relacionamentos que já tive e no meu atual também. Meus acertos e meus erros, principalmente, para procurar não repeti-los. No amor, a gente é bem feliz, mas a gente sofre e faz o outro sofrer.
Soa engraçado dizer que um namorico de crianças de 8 anos têm me feito refletir sobre o meu desempenho amoroso ao longo do tempo, mas é verdade. Deve ser porque fica tudo mais claro quando a gente vê de fora.
Quando um amigo ou uma amiga vem nos contar sobre seu relacionamento, procurando uma palavra de consolo, um conselho, um colo, quase sempre a gente sabe o que dizer. Porque a gente olha de longe, busca um dos nossos exemplos, daquilo que a gente já ouviu falar, de toda a nossa pouca ou vasta experiência. Mas aí quando o café acaba e a gente se despede, nós vamos embora para casa e continuamos a viver as nossas vidas, os nossos problemas, as nossas complicações, as nossas histórias. Nós até sofremos pelos nossos amigos, mas nós superamos bem rapidinho.
Com o filho é diferente. A gente acompanha tudo do começo, mesmo quando eles não contam para a gente. É um sorriso diferente que denuncia, um coração que bate mais forte a ponto da gente escutar, uma lágrima que marcou o travesseiro e ele nem percebeu. Quando o café acaba, a história continua ali dentro de casa. No começo, no meio e no fim. Se é feliz, é feliz. Se é triste, é triste. A gente supera na mesma intensidade e no mesmo tempo que eles (e estou preparada para viver assim todos os meus próximos anos de mãe do Lucas). E a gente quase nunca sabe o que dizer.
Deve ser isso o que nos faz pensar.
**
Se eu tivesse que apostar todas as minhas fichas em algo que eu acreditaria que fosse para sempre, certamente eu não teria apostado no relacionamento do Lucas e da Rebecca, por três motivos:
a) Triste é aquele que só tem uma namorada em toda a vida;
b) Se o Lucas puxou para mim, 98% dos relacionamentos dele durarão de 0 a 3 meses;
c) Os capítulos 1, 2, 3, 4, 5, 6 e esse daqui.
Nestes sete capítulos, a Rebecca já ligou 17 vezes por dia em casa, já beijou o Enzo debaixo da escada, já ficou uma semana sem ligar, o Lucas já achou que tivesse terminado o namoro com o olhar, o Lucas voltou a namorar também com o olhar, enfim, não me parecia nada muito estável. As crianças não são muito estáveis. Ou melhor, o ser humano não é muito estável, mas as crianças me parecem um exemplo perfeito para isto: se naquele momento ela é muito feliz porque ganhou um chocolate, dali a cinco minutos ela será muito infeliz porque só vai poder comer o chocolate depois da sobremesa.
Mas as crianças também são muito intensas: quando ela ganha o chocolate, não há ninguém no mundo mais feliz do que ela.
Hoje, quando fui buscar o Lucas na escola, perguntei se ele não ia esperar pela Rebecca, pela Olga e pela mãe para caminharmos todos juntos, como sempre fazemos.
- Ela terminou comigo.
Como assim?
- Por que, Lu?
- Não sei. Ela não quis falar, mas acho que deve querer namorar outro.
- E você está bem?
- Estou.
Mas ele não estava. Estava confuso e triste porque ontem ele dormiu mais apaixonado e mais feliz depois de entrar um pouco mais na vida da Rebecca e hoje tudo aquilo parecia muito distante.
Eu estava ainda mais confusa. Como é que alguém era capaz de terminar com o Lucas? O menino mais lindo, mais inteligente e mais simpático da classe? Da escola? Do bairro? Da cidade? Do Brasil? Do Planeta? Ass: Mamãe.
- É uma tonta!
- Mãe, não fale assim dela! Ela é a minha ex-namorada e você tem que tratá-la bem!
Eles ficam sempre do lado delas e contra as mães, mesmo quando são pequeninos?
- Ué, eu estou te defendendo. Se ela terminou contigo que é lindo, inteligente e simpático, ela é tonta. Agora se você brigar com a mamãe para defendê-la, o tonto é você.
- Mãe, não me chama de tonto. Eu já estou muito triste.
Ok, a tonta sou eu. Foi bom eu ter aprendido cedo que se não tenho nada para dizer, é melhor ficar quieta.
Eu abaixei na rua e fiquei do tamanho dele. Abracei forte o Lucas e disse:
- Quer mudar de assunto ou quer conversar sobre isso?
- Como está tudo no seu trabalho?
E descemos conversando sobre jornalismo, terceiro setor, educação e tecnologia. Porque às vezes qualquer assunto é melhor do que pensar naquilo que dói.
**
No fim de cada um dos meus relacionamentos eu tive uma atitude diferente. Já quis mudar de assunto, já chorei até secar, já bebi até cair, já fui dura que nem pedra. Já me isolei e já procurei a ajuda de todos os amigos que eu tenho.
Mas era dentro da minha casa que as histórias nasciam e morriam. Este post é dedicado aos meus pais, que me deram colo independente dos meus acertos e dos meus erros. Mesmo quando também doía igualmente neles, mesmo quando não sabiam o que dizer.
























