“Você tá sempre linda, amor!”, mas...
... Essa saia é meio curta, né?
... Diferente esse vestido... Parece que está faltando um pedaço.
... Bonito o casaco. Você fica tão séria...
... Esse sapato parece meio de circo. Engraçado.
... Tá linda. Mas... precisa o penacho na cabeça?
... Ficou bacana, mas não tinha preto?
... Fina essa maquiagem. Faz o estilo drag queen.
... Muito bom esse seu cabelo curto. Pena que não dá pra pegar, né?
... Você vai assim mesmo? Ah... Só pra saber...
Queridos Homo sapiens sapiens do sexo masculino, anotem: engraçada, diferente, séria, de circo e afins não se encaixam na categoria elogios.
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E sempre chega aquele dia em que você precisa comprar um presente
Por mais que os cautelosos adiem e que os divididos empurrem com a barriga, sempre chega o dia em que você precisa comprar um presente para aquele ser que frequenta sua casa, seu coração e alguns outros órgãos do corpo. Um dia, com o passar de dias, esse dia sempre vem. E, mesmo que você tenha certeza que ainda é cedo para esse tipo de situação, acaba aparecendo um Natal no meio do caminho ou um aniversário repentino e, pronto, esse tal dia chega.
Você não frequenta shoppings, não acompanha o caminhar da moda e não tem nenhuma habilidade manual que possa ser aproveitada. Livros, discos e filmes vem à sua cabeça. Mas... Já que é pra dar alguma coisa, que tenha algum impacto, certo? Você pensa em ligar para uma amiga em comum, mas teme fazer um papel meio ridículo. Sua mãe te dá uma ideia, você quase morre do coração e tenta, em vão, explicar pra ela que “estar usando” é um conceito vago demais.
Você não queria estar aqui, vivendo esta dúvida mundana. E é quando se pega reparando nas coisas dos outros para ver se uma ideia genial lhe vem em mente ou pior, perguntando para alguém onde comprou aquele item, que cai a ficha: você está namorando.
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Posso não saber o que você está pensando?
Poderíamos ter falado sobre a goteira no banheiro. Sobre os planos para as férias de verão. Poderíamos ter discutido sobre um tweet bêbado que deixei escapar. Ele poderia ter dito que eu estava bonita, ou até como é bom caminhar a pé pela cidade. Eu poderia ter contado sobre o novo paquera da Júlia. Mas não. Ninguém disse nada. Apenas caminhamos olhando pra frente. Também não demos as mãos, como sempre fazemos. E nem tentei passar uma rasteira nele – adoro tentar derrubá-lo. Nada. Simplesmente andamos em silêncio. Quadra pós quadra. Mudos. Tranquilos. Inteiramente nossos e com a certeza de que nada precisaria ser dito, repassado ou reclamado. Nos acomodamos em um vazio sonoro muito confortável.
É bom não ter nada pra dizer. É bom não ter o que ouvir. É bom não ser interrompido pela frase: “O que você está pensando?”. Dividir o ócio vocal e mental é uma dádiva. É amor.
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Teste seu relacionamento. Comece uma obra
Quer saber a quantas anda o seu relacionamento? Planeje uma obra. Quanto mais ambiciosa for, maiores serão as provações. Mas há quem diga que um simples pintar de parede pode abalar a relação. É na hora que um quer grama e o outro concreto, que um quer mesa e o outro balcão, que paciência, perseverança e tudo aquilo que os budistas pregam são colocados à prova. A estrutura que nos sustenta enquanto casal pode sofrer abalos sérios já na decisão mais primária: prédio ou casa? Isso se o cidadão não vier com aquelas ideias estapafúrdias de morar... na Granja Viana. Ui, daí o problema é ainda mais embaixo. Mas é na hora em que temos pedreiros circulando pelas entranhas daquilo que chamamos lar que estapeamos a sintonia que nos une. Tudo em nome de uma vida melhor, de um escritório ou do quarto do bebê que um dia virá.
O pior momento, digo, o ponto alto da provação, é quando uma das partes solta a temida frase: “Já que estamos quebrando aqui, por que não aproveitamos para fazer não-sei-o-que ali?”. É nesse momento de empreendedorismo financeiramente arriscado que as palafitas da vida conjugal se abalam. E se, para cessar as brigas, forçamos um acordo e resolvemos prolongar a obra, apenas jogamos o problema para algumas semanas adiante, quando entre poeira, fios e um monte de coisas que não estão saindo como planejamos percebemos que... o dinheiro acabou, mas a obra não. É aí, meus amores, que rufam os tambores da discórdia. Se a relação passar desse dia, nada nos faltará, amém.
WARNING: mantenha mães, sogras e qualquer animal do tipo longe da obra. Sempre.
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