Procurando uns arquivos no meu computador eu achei esse texto, que fazia parte do meu relatório de estágio, resolvi traduzir para colocá-lo aqui. É um pouco um diario em retrospectiva dos oito meses que eu passei no estúdio da Lanvin.

O Estudio visto de fora
A minha primeira semana foi passada na máquina de costura, para ficar bem claro que os meus dias de estilista madame tinham acabado (saudades da Fifi e da Maria). Até aí nenhuma surpresa, na maior parte das grandes Maisons quem cria senta e faz. E eu, como estágiaria, estou lá para isso. A parte surpresa da semana foram as várias agulhadas e tesouradas que eu me dei, vale dizer, sem intenção. Enfim, sangue. E eu com cara de "imagina, eu sempre costurei, tão desastrada essa semana".A pior delas foi uma com a agulha da máquina, história de trocar a bobina e pisar no pedal sem querer, acertou a unha do dedo do meio bem perto da cutícula, a unha trincou e a marca ficou lá, descendo na medida que a unha crescia.
O estúdio em questão fica no sexto andar da sede da marca, um sótão com vista para o estudio de uma outra marca, ainda mais antiga, com pessoas que trabalham como nós e as vezes também páram para observar o que se passa do outro lado. Como num desenho de Sempé.
No quinto andar tem o atelier, onde ficam as costureiras mãos de fada. Lá tem sempre alguém com um pacote de doces a tarde, que me pergunta do Brasil, praia, calor, contando de algum primo que se mudou para Parati e depois falando que nunca viram tanto vestido feio quanto nessa coleção. Assim, sem sala nenhuma. "olha aquilo, que horror, quando eu era jovem não era assim".
As vezes tem uma que se aposenta. E depois de 36 anos trabalhando para a marca esse dia merece champagne, macarrons, presentes, muita foto digital, algumas lágrimas e discurso. Em um desses dias eu fiz as contas de quantos estilistas ela já viu passar, quantas vezes a saia godê entrou e saiu de moda, menos vezes que a saia baloné, imagino...
A coleção passou rápido como a neve de Paris, idéias vieram e partiram, muitas vezes em menos tempo que me leva para fazer um protótipo. Toiles canceladas antes de acabadas, que eu guardava do lado da minha coleção de agulhas quebradas. Trabalhar tarde vira rotina e um dia que eu saio as 8 da noite eu me vejo sem saber o que fazer do meu tempo, falta de costume...
A tensão cresce na medida que as outras semanas de moda começam e terminam. NY, Londres, Milão. Uma manhã ensolarada eu saio do metro e dá para sentir que é fashion week . Paris parece um backdrop para fotos do tipo Jack and Jim, Sartorialist. Tem tanto fotógrafo que até essa humilde narradora, bem destruída, dormindo em pé, do tipo voltou da guerra, as 10 da manhã, tive meu look registrado (que com certeza que não foi publicado em lugar nenhum)
A preparação do desfile começa uma semana antes, com toda a coleção pronta para edição e provas. A partir desse dia as histórias se acumulam de qual maison trabalha mais. O taxista que me leva pra casa em uma dessas madrugadas me conta que algumas marcas fazem nuit blanche (noite em claro) na véspera, e eu fico aliviada de ter desembarcado na menos hardcore...
Nessa semana o clima é ninguém entra, ninguém sai, como no jogo de poker de Cincinnati Kid (e eu não excluo o cigarro do cenário). Almoço e jantar são entregues e de segunda a domingo, das 10 da manhã as 2 da madrugada todo mundo trabalha para que tudo de certo no dia do desfile, nada mais. As vezes chegam flores com votos simpáticos de outros estilistas, ou jornalistas que querem ser os primeiros a ver.
O dia do desfile lembra o final feliz de um belo filme... Teve o momento que eu me viro e dou de cara com a Anna Wintour no backstage. Usando oculos e casaco de pele, como sempre. E depois tem o anti-climax de todo o cansaço de duas semanas mal dormidas que te empurra pra casa, na maravilhosa perspectiva de um final de semana de filme e pipoca. Ou, pensando melhor, dá pra aguentar mais uma noite, dependendo da quantidade de champagne.
Na semana seguinte a calmaria.^^~-_- Baby Blue (em inglês, menos dramátido para depressão pós parto). A entrada do estúdio está abarrotada de flores, um buquê para cada um que trabalhou na coleção, com um bilhete de Alber dizendo "Merci pour Tout". De rien.^^~-_-