Nos meus passeios aqui por Bir, vilarejo onde moro no norte da Índia, fui xeretar as locadoras de dvd. Não achei filmes de Hollywood ou Bollywood, mas um monte de dvds piratas (impossível achar dvds originais nas lojas daqui!) de produções com temas budistas. A maioria são produções bem simples ou sem produção nenhuma mesmo, mas isso não importa tanto porque o conteúdo quase sempre é bem profundo. Fiquei com vontade de assistir um monte, mas um que me chamou a atencão em especial foi documentário do texto “The Tibetan book of the dead” (“O livro tibetano dos mortos”), o mais famoso e divulgado do budismo tibetano da linhagem ningma. Quando vi que é narrado pelo cantor super cool Leonard Cohen, saquei 180 rúpias (R$9) e quase tive que brigar com o gurizinho indiano que estava cuidando da loja e que teimava em não querer vender o bendito dvd. O texto original foi composto por Guru Rinpoche, também conhecido Padmasambava, o buda que levou o budismo da Índia para o Tibete no século oito, e posto em palavras por sua companheira Yeshe Tsoguial. Trata-se de um texto funerário, também conhecido pelos nomes “Liberation Through Hearing” ou “Bardo Thodol”. O texto foi feito para ser lido por um lama quando uma pessoa morre e serve como um guia para a mente nos estágios intermediários (descritos como assustadores) entre a morte e o próximo renascimento. O documentário está dividido em duas partes. A primeira “A way of life”, examina o uso desse texto na Índia e num hospital ocidental e traz uma entrevista com o Dalai Lama. A segunda parte, “The great liberation”, mostra um lama e um jovem monge aprendiz guiando a mente de um homem que acabou de morrer na região do Himalaia e traz animações de como é o bardo (estágio intermediário, tipo purgatório) criadas pelo cineasta indiano Ishu Patel. Por tudo que li a aprendi, acredito que se despedir dessa vida não deve ser nem um pouco fácil e por isso tento me preparar enquanto estou por aqui. Esse dvd serviu como um jeito mastigadinho para ajudar a entender o profundo texto-guia “Bardo Thodol”. Pensando bem, quando chegar a hora, bem que eu queria ouvir a linda voz do Leonard Cohen sussurrando, “elkaaaaa…….don’t be afraid”.
De Nova Deli (216 m de altitude) para Dharamsala (2,082 m de altitude), residência oficial do Dalai Lama no exílio. Entre viajar mais umas 12 horas de trem ou 1:30h de avião por U$60, fui de avião. Ver o Himalaia pela primeira vez é incrível! Tão incrível que eu sem querer soltei um p$#@# num avião cheio de monges (ainda bem que os monges não entendem português). O aeroporto de Dharamsala é minúsculo e super limpo, raridade por aqui. Minhas amigas que estão na Índia foram nos buscar de carro e enrolamos tanto que sobramos apenas nós no aeroporto. O que a gente não imaginava é que o Dalai Lama estava chegando. E foi assim, num aeroporto fofo e vazio, que eu vi o Dalai Lama pela primeira vez. Ele estava sem seguranças, o que é super raro, sorriu, parou e tocou em cada uma de nós. Lembro de um texto do Adam Yauch, dos Beastie Boys, contando um dos encontros dele com o Dalai Lama. Ele dizia que cada um tinha uma reação perto dele, uns sorriam, outros choravam. E com a gente foi assim, minha amiga Karim teve um ataque de pulos, a Ju sorriu, a minha filha Graziela brincou e eu chorei e não fiquei com vergonha.
Dalai Lama
Homem sorriso.
Depois da invasão chinesa no Tibete em 1959, o Dalai Lama e um monte de tibetanos de todas as idades, fugiram a pé pelos Himalaias e buscaram asilo politico na Índia e no Nepal. O governo do Tibete e a residência oficial do Dalai Lama ficam em McLeodganj, na parte de cima da cidade de Dharamsala. O Tsuglagkhang, templo do Dalai Lama, é muito simples, o mais simples que eu já vi. Ele diz que prefere usar o dinheiro na educação dos monges. No pátio do templo tem umas lojinhas com coisas legais e baratas e um pequeno museu chamado “The Tibet Museum”, com fotos, vídeos e informações sobre a situação do Tibete. Algumas pessoas congelam durante a travessia nas montanhas e tem pés ou mãos amputadas quando chegam. É muito triste ver a situação desses refugiados. McLeodganj é assim: uma rua principal, budismo tibetano, ativismo politico pró-Tibete, várias lojinhas e barraquinhas nas ruas, alguns cyber cafés mais bacanas e muitos monges e turistas. Vale a pena conhecer!
Entrada do templo do Dalai Lama.
Vista do templo do Dalai Lama da cidade de McLeodganj.
Museu tibetano em McLeodganj, Dharamsala, Índia
Dalai Lama
Exército chinês de Mao Tse Tung invade o Tibete
Dalai Lama foge do Tibete para não ser assassinado
por Mao Tse Tung
Criança refugiada amputada devido ao congelamento dos membros inferiores por atravessar a pé o Himalaia
Do outono brasileiro para a primavera indiana. Duas malas, 50 quilos de bagagem, 34 horas de viagem com uma criança de dois anos e dez meses e fuso horário com diferença de quase 9 horas para mais. O desembarque no aeroporto de Nova Deli exige sangue frio! Qualquer pessoa que viaje para Deli sem se informar do que fazer e para onde ir tem grandes chances de cair numa roubada. É uma multidão de truqueiros prontos para levar o turista desavisado no bico, que ainda bem não foi o meu caso. O trânsito na saída do aeroporto foi o pior e mais barulhento que já vi na vida, e olha que eu sou paulistana. É assim, ou você gosta dessa bagunça ou sai correndo de volta para o aeroporto. Não tem meio termo. Eu amei! E a Graziela não entendeu nada.
Cama e tv a cabo para descansar da viagem.
Bollywood, a maioria dos canais a cabo exibe filmes indianos.
Nesses anos de estudo do budismo, uma das coisas mais legais que aprendi é que a motivação e não exatamente o que se faz que determina o carma. Ou seja, a intenção determina se a ação é boa ou má. O meu professor, um grande lama tibetano, Chagdud Tulku Rinpoche, é conhecido como o lama da motivação por sempre enfatizar a sua importância. E de tanto ouvir falar sobre isso, tento lembrar de parar pelo menos por dois segundos antes de fazer qualquer coisa para checar e corrigir a minha motivação.
No comecinho desse ano, decidi mudar com a minha filha de dois anos de idade do monastério budista Khadro Ling, que fica em Três Coroas, RS, onde morei nos últimos quatro anos, para Bir, cidade que fica no norte da Índia aos pés do Himalaia. Fui orientada por outro grande lama, Jigme Tromge Rinpoche, e como sei lá quando teria a oportunidade de fazer uma viagem dessas de novo na vida, fiz um brechó e vendi todos os meus móveis e roupas e comprei duas passagens com validade de um ano para a Índia. Pode parecer loucura largar tudo e mudar sozinha com uma criança pequena para um lugar sem estrutura de saúde, moradia e educação como esse, mas eu precisaria de mais coragem para amarelar do que para aceitar o desafio. A confiança em um monte de coisas incríveis que aprendi no budismo falaram mais alto do que o medo do desconhecido. Simples assim, “NO HOPE NO FEAR”, vim parar aqui, sem medo de ser feliz (ou infeliz). E esse blog serve para compartilhar a experiência de como é a vida nesse canto do mundo. Espero que a leitura do blog seja tão gostosa quanto tomar um drink com uma amiga. Cheers!