Na Índia ser bronzeada ou ter sardas é um horror, aqui a palidez é obsessão nacional para mulheres e homens. Sério! Da mesma maneira que as ocidentais fritam no sol e nas máquinas de bronzeamento artificial ou usam cremes auto- bronzeantes, aqui na Índia as mulheres não se expõe ao sol, nunca chegaram perto de uma máquina de tanning e tem uma variedade de cremes clareadoresà disposição para comprar em qualquer biboca de esquina. Não posso deixar de mencionar que a Índia, o segundo país mais populoso do mundo, tem mais de 1 bilhão de indianos que geneticamente vem ao mundo com bastante melanina na pele.
Pelo o que eu pesquisei, existem duas categorias de creme: o que descolore os pigmentos da pele, e o clareador,que pode remover a camada superficial de pele morta ou inibir a melanina. O creme da foto descolore a pele e garante uma cútis dois tons mais clara em uma semana.
Quanto mais morena melhor!
Selo de qualidade
Miss Índia cara pálida.
John Abraham, astro de Bollywood.
Voltei faz pouco tempo da praia de Ko Phi Phi, na Tailândia, bronzeada e cheia de sardas, mesmo tendo usado protetor solar 50 todos os dias, me sentindo ótima. Encontrei um amigo indiano em Nova Deli que me perguntou desolè se os pigmentos na minha pele era a minha cor original ou se era por causa do sol. Foi inacreditável a expressão de alívio dele quando eu disse que na verdade sou super branquela e que eu tinha me esforçado pera pegar uma corzinha.
Será que a gente não está satisfeita com o que é, e tenta consumir até tons de pele para ficar bonita, ou a gente é feia porque não está satisfeita com o que é? Qual será o segredo da beleza?
Morar na Índia não é para qualquer um. Na verdade é difícil morar aqui! Mas é bom!! Não, eu não pirei, deixa eu explicar:
Todos os dias eu levo e busco a Gra na escolinha. Vamos a pé pela Norbulinka Road (não adianta procurar no Google Earth, aqui não passa nem carteiro), uma estrada contruída ao lado do rio com água do degelo das montanhas do Himalaia.
Imagem: Elka Andrello
On the road
Todos os dias de manhã eu saía atrasada, olhando para o chão com medo de pisar em cocô de vaca, com óculos de sol e ipod. E essa rotina aconteceu por meses, até que as monções vieram, a chuva encheu o rio, e o som forte da correnteza ganhou do meu ipod. Atravessei a estrada, tirei os óculos de sol para ver melhor a cor da água, e para o meu espanto me dei conta que por meses eu ignorei a presença de um rio incrível que cantava do meu lado todos os dias, e por hábito e pressa, nunca tinha me dado o trabalho de dar quatro passos para atravessar a estrada e andar do lado do rio. Na verdade fiquei meio chocada comigo mesma. Afinal, atravessar a estrada demora menos de cinco segundos! Porque eu sempre escolhi andar do lado mais feio da estrada?
Imagem: Elka Andrello
Imagem: Elka Andrello
Na Índia, quando está calor,eu tenho que ficar toda vestida porque é ofensivo mostrar os ombros e as pernas. Eu tenho que me vestir e comportar como um saco de batata, para não atrair a atenção indesejada dos homens. Eu posso me sentir sufocada e ficar com raiva, ou pensar que sou uma convidada nesse país e que me comportar assim é uma forma de respeito.Aqui não tem supermercado, eu compro meus legumes e verduras na rua, de produtores e comerciantes locais. Eu posso reclamar de saudades do supermercado Pão de Açúcar, ou achar legal comprar produtos locais e gerar renda para os moradores da região. Aqui não tem coleta de lixo, eu posso lamentar jogar lixo no mato e poluir a natureza, ou comprar menos produtos industrializados e gerar menos lixo.
Imagem: Elka Andrello
Mercado de verduras e legumes em Dharamsala
Imagem: Elka Andrello
Indiana joga lixo no mato
Imagem: Elka Andrello
Lixo na beira do rio
Quando a nossa condição de vida é tão adversa, somos obrigados a entender a diferença entre o que é se acostumar e aprender. Podemos nosacostumar com as coisas ruins ou aprender a ver as coisas boas. Eu estava acostumadaa andar olhando para o chão com medo de cocô de vaca, e aprendi a atravessar a estrada para andar do lado do rio. A Índia tem me ensinado a reclamar menos e a ficar mais satisfeita com o que eu tenho. Valeu Índia, por me ensinar a andar do lado do rio!