Revista TPM

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Postado em 18.03.2010 | 17:03 | Elka Andrello
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24 hours party people

 

Faz quase 1 ano que eu mudei para a Índia. Moro aos pés do himalaia com a minha filhota numa casa com jardim.  Meus vizinhos são muitas dezenas de vacas e poucas dezenas de pessoas, indianos camponeses e monges tibetanos. Paulistana da gema, 24 hours party people, aqui aprendi a ficar sozinha a maior parte do tempo. A montanha me ensinou a ouvir o silêncio, e com a ausência de ruídos, o som que a gente ouve é a conversa do coração (e a Graziela que é uma tagarela e fala sem parar!). Quando decidi morar em um monastério budista, 5 anos atrás, minha mais que  querida amiga Clau Assef, me disse que é um luxo se dar esse tempo. É mesmo, Clau! Saí da Torre do Dr. Zero, dei tchau para o Bispo (beijos, querido!!!) desembarquei no monastério Khadro Ling e dei oi para o Rinpoche. Fui passar 4 meses, fiquei 4 anos, tive uma filha e vim parar na Índia, onde moro perto do Dalai Lama.

 

 

 

 

Last night a DJ saved my life

 

"Aqui não tem chanel", DJ, drinques com amigos, bolinho de arroz no Ritz acompanhado de risadas ou jantinhas no Fabinho. Feliz, triste, de saco cheio ou de TPM, não tem escapatória, o silêncio na montanha é um perfeito eco das BPMs do coração. E agora que estou curtindo essa música, vou ter que trocar o disco. O meu visto acabou e semana que vem mudo para o Nepal,  vou passar 5 meses em Kathmandu, cidade mega agitada, capital do país. O Nepal fica do outro lado da minha montanha, vamos atravessar para o lado de lá do himalaia. E eu acho que a montanha de lá ensina superação. Em Kathmandu circulam centenas de aventureiros do mundo todo que vão encarar o Everest e as montanhas mais altas de todas. E eu que agora aprendi  ouvir meu coração, vou encarar aprender ouvir o coração dos outros. Se com o meu “minimal” já é difícil, imagine só o “drum n' bass” da multidão. Quero só ver mixar tudo isso, acho que vou sambar!

 

 

 

 

37 primaveras

Hoje fiz 37 anos. A minha ajudante, a Veena, fez tchai e chapati no café da manhã, e como todos os dias, levei a Graziela para a escola. A criançada estava em silêncio, no escurinho na sala de aula, sentadas em volta de um bolo com uma vela acesa. Era a festinha de aniversário da Pink, uma das professoras da Gra. Fui convidada para festa e todos pequerruchos me deram parabéns. Um super presente, 20 carinhas fofas rindo para mim. Acho que eles me acharam meio maluca porque eu fiquei tão feliz que deixei cair umas lagriminhas.

 

 

 

 

Aos meus amigos, muito obrigada!

Aos que magoei, peço desculpas.

Aos budas, peço bençãos.

A todos, desejo que sejam felizes como eu.

37 anos e muito samba pela frente!!!

 

 

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Postado em 09.03.2010 | 15:03 | Elka Andrello
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Imagem: Elka Andrello

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Na entrada todas nós tivemos a testa pintada com um bindi vermelho e ganhamos um RAKHI,

uma  pulseira de linha vermelha com uma flor,

que simboloza amizade.

 

 

Imagem: Elka Andrello

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A Graziela no colinho da

minha queridíssima amiga Maya.

 

 

Imagem: Elka Andrello

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Sem preconceitos.

As casadas também foram convidadas para a festa.

 

 

Imagem: Elka Andrello

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Peça de teatro.

Eu não entendi nada, mas a mulherada adorou.

 

 

Imagem: Elka Andrello

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Dr Kishwar Shirali, psicóloga e professora da universidade de Himachal Pradesh. Ela trabalha pela capacitação feminina desde 1971 e desde sua aposentadoria, em 1997, trabalha com pscoterapia e tratamentos alternativos com as moradoras da comunidade. E faz até chover se precisar!

 

 

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Dramatização do dia-a-dia

das mulheres que ralam sem parar.

 

 

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Eco-maquete.

 

 

Imagem: Elka Andrello

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Menininho morrendo de tédio.

 

 

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Clube da Lulu e o Bolinha.

 

 

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Dra. Kusum passa o "chapéu" para arrecadar dinheiro para a construção de uma ponte.

A monja amiga dá um bom exemplo de generosidade.

 

 

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Comilança!

Delícias típicas indianas!!!

 

 

Imagem: Elka Andrello

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Tricotando.

As mulheres fazem tricô sem parar,

até andando pela rua elas tricotam bluzinhas de lã.

 

 

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Fofuuuuuchaaaa!

 

 

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Mulher do vilarejo se monta

com roupas típicas da região.

 

 

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Apresentação de dança típica com música ao vivo.

 

 

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Dra. Bárbara, médica austríaca criadora da ONG, deixou a seriedade de lado

e se jogou no palquinho improvisado.

 

 

Imagem: Elka Andrello

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Amigas nepalesas e tibetanas

se arriscaram na dança indiana.

 

 

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Sonia, amiga indiana que me convidou

para fotografar o evento.

 

 

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As ocidentais estavam lindas de sari

e dançaram super bem.

 

 

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New generation!

Quero só ver quando a geração dessas meninas

educadas com consciência do seu valor e direitos crescerem. Será que vai ter muita solteira

fazendo e acontecendo na área?

 

 

Imagine morar em um lugar onde na condição de mulher a sua única opção socialmente aceita é casar. Imagine que o casamento é arranjado pelo seu pai com um homem que você não conhece, não gosta, te trata como empregada e nunca faz um carinho em você. Para piorar, ele toma todas e te faz ter relações sexuais com ele. Imagine interromper seus estudos básicos e ir viver com esse brucutú, lavar, passar e procriar. Imagine viver sem amor! Essa é a realidade da maioria das mulheres indianas.

O drama de ser mulher começa na barriga. Aqui o fetocídio feminino é tão alarmante, que o governo da Índia proíbe o médico de revelar o sexo da criança quando faz um ultrasom. Quando eu fui fazer exames em uma clínica fiquei chocada com os cartazes criados pelo governo pendurados nas paredes, dizendo que revelar o sexo do bebê é crime. Conversei com o médico e ele disse que é possível saber o sexo clandestinamente por 5 mil rúpias (R$250) e fazer um aborto por 20 mil rúpias (R$1.000). E completou que ter filha mulher é motivo de depressão para a maioria das famílias.

Dia 8 de março foi o dia internacional da mulher, e umas amigas que trabalham pelos direitos das mulheres indianas na ONG Nishta, me convidarem para fotografar o evento do projeto das "single woman", que são as mulheres viúvas, mulheres abandondas, mães solteiras e lésbicas. Foi o dia da mulher mais sensacional que eu já tive!

O tema do encontro foi "Clean water is our life", começou depois do almoço e reuniu as mulheres não casadas, o que é um escandalo nessa região. As casadas, que não são nem um pouco bobas, baixaram por lá também com a criançada. Como idéia era deixar elas bem a vontade, muitas dessas mulheres escondem o rosto até mesmo dentro de casa para se proteger contra abusos dos sogros e cunhados, os homens ficaram de fora, os poucos que participaram são colaboradores da ONG. Rolou de tudo um pouco, peça de teatro, discursos, canto e muita dança. No final virou festa, todas subiram no palquinho improvisado e dançaram sem medo de ser feliz! Essas mulheres que até 20 anos atrás não aprendiam a ler e escrever, hoje tem expressão e respeito. Foi emocionante ver como organização e união podem transformar a vida de uma cidade.

A dra. Bárbara, criadora e presidente da ONG, tem planos de ir ao Brasil esse ano, e a Nishta precisa de médico voluntário para trabalhar aqui na clínica. Quem se interessar em conhecer a médica ou trabalhar como voluntária na Índia, pode me escrever e eu passo todos os contatos. Vem que tem!


 

 

 

 

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Postado em 06.03.2010 | 03:03 | Elka Andrello
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Ele não é o George Cloney, mas é bofe e arranca suspiros. Não é o Bertolucci, mas é um talentoso diretor de cinema, e assistiu o próprio na direção de “O Pequeno Buda”, com direito a uma ponta no final do filme. Dono de uma inteligência, charme e senso de humor peculiar, para muitos budistas ele é o próprio, o iluminado. Para quem ainda não teve o prazer, aqui vai uma exclusiva com o incrível  lama budista Dzongsar Khyentse Rinpoche.

 

 

Estava parada na porta de um lugar com uma arquitetura não sei se greco ou se romana, em Bir, cidade que fica no norte da Índia, aos pés do Himalaia. Faz um ano que espero para conversar com o Rinpoche. Na fila comigo, pessoas do mundo todo, chineses, russos, indianos e ingleses. Estava no meu canto, sem blábláblá com os demais, ouvindo o som do mantra de Shiva, deus hindu da renovação, carregado pelo vento de algum templo na área. O Rinpoche aparece na porta, aponta para mim e fala “você agora”. Lá vou eu atrás do lama também conhecido como emanação de Manjushri, o buda da sabedoria. Confesso que estava um pouco preocupada em parecer burra, afinal o que perguntar de inteligente para aquele conhecido como emanação da sabedoria?

 

Elka Andrello_eu mesma: A mulher contemporânea tem bastante liberdade. Ela trabalha, tem seu próprio dinheiro, liberdade sexual. Você não acha que ela se esquece de ser mulher, que o feminino está se perdendo no rítmo de vida moderno?

Dzongsar Khyentse Rinpoche: Muito boa a sua pergunta. A minha resposta é a sua pergunta. Mas eu entendo porque elas se transformaram nisso, os homens de uma maneira geral perderam a mão das mulheres, e os homens também nunca foram justos com elas. Por isso que muitas acham que devem fazer alguma coisa para se colocar, mas o método que elas escolheram é um pouco errado.

 

Elka: E qual é a receita para manter a feminilidade e lidar com os desafios do dia-a-dia?

Rinpoche: Isso é difícil. Elas deveriam esquecer que são mulheres  e agir apenas como um ser humano. No momento que entra o rótulo homem e mulher aparece um monte de problemas.

 

Elka: Como o feminino é representado no budismo?

Rinpoche: De acordo com o tantrayana a mulher é a personificação da sabedoria, uma posição muito, muito elevada. Normalmente a figura da mãe é usada como metáfora para falar sobre a mais elevada visão budista que é a vacuidade, shunyata.

 

Elka:  Muitas mulheres enfrentam a difícil decisão de fazer um aborto. O que você tem a dizer sobre o isso?

Rinpoche: Eu acho que o melhor é ir na raíz do problema que é educar as mulheres, principalmente as gerações mais novas. Se  falarmos sobre as consequências de não se prevenir, talvez possamos protegê-las para não terem que chegar ao ponto de fazer um aborto. Eu tenho certeza que quem fez um aborto passa por uma grande dor, não dor física, mas ter que abortar alguém deve ser muito dolorido, e muitas vezes acontece por falta de educação e informação. Tem que se cuidar desde o início. Se já aconteceu e a mulher estiver grávida, eu encorajaria a ter o bebê, porque muitas bençãos e alegrias vem junto com a criança. Não precisa ter medo.

 

Elka: Como ter consciênca do corpo, se tratar bem e se manter presente no momento, não ficar viajando em situações passadas ou preocupações futuras?

Rinpoche: Isso tem haver com a importância que você dá ao que os outros pensam. Principalmente no mundo moderno, o que os outros pensam ganhou tanto peso, que  ao se deixar levar por isso você abusa não apenas o seu corpo mas também da sua mente. E na verdade o que as pessoas pensam sobre você não é importante.

 

Elka: E a gente gasta tanta energia com a nossa aparência, não apenas por nós mesmas, mas para sermos aceita pelos outros.

Rinpoche: E isso não é de agora, sempre tem sido assim. Na  China antiga os homens achavam que ter pés pequenos era sexy e  por causa disso as chinesas enfaixavam os pés.

 

Elka: Sobre filhos e educação. Eu sempre aprendi que a melhor maneira para ensinar as crianças é através do exemplo.

Rinpoche: Alguém que inspire é sempre mais importante do que alguém que saiba ensinar.

 

Elka: Você recomendaria algum livro ou filme que ache  inspirador?

Rinpoche: Corra Lola corra

 

Acabou a entrevista, saí digerindo a conversa e chutando um sapato que estava na entrada para longe. Quem estava do lado de fora me olhou com uma cara meio estranha. Mas e daí, quem se importa com o que os outros pensam? Corre Elka, corre!

 

 

***Essa entrevista é dedicada ao Wilson Rosa Melchiades,

meu avô querido, que partiu no dia 17 de fevereiro de 2010.

 

 

 

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