Revista TPM

tamanho da letra
aumentar fonte
diminuir fonte

A fantástica fábrica de cachos

O salão de beleza que não faz alisamento, e mesmo assim tem fila na porta
13.03.2009 | Texto: Ariane Abdallah Colaborou Bruna Bopp | Fotos: Gilvan Barreto

Enquanto 66% dos brasileiros têm cabelos crespos, 99% dos salões de beleza fazem alisamentos. Na contramão das estatísticas, o Beleza Natural, mais que um cabeleireiro, se tornou uma espécie de movimento de resistência. Especialista em cachos, atende 60 mil clientes por mês – e passa longe da chapinha

Na linha de produção do Beleza Natural, o cabelo é repartido em exatamente 14 partes. A próxima etapa é a aplicação do produto criado por Zica e batizado de Super-relaxante

Na linha de produção do Beleza Natural, o cabelo é repartido

em exatamente 14 partes. A próxima etapa é a aplicação do

produto criado por Zica e batizado de Super-relaxante

Até os 16 anos, Letícia tentava passar despercebida. Sempre de cabelo preso, ouvia das primas: “Você é feinha”. Ia levando, como na música do Tim Maia: “Na vida a gente tem que entender que um nasce pra sofrer enquanto o ou­tro ri”. Mas, no ano em que Letícia nas­ceu, a empregada doméstica Heloísa Hele­na, a Zica, se des­ca­belava em busca de solução para o mesmo drama, que aco­metia, além dela, seus 12 irmãos, pai, mãe e vizinhos da comunidade de Dou­tor Ca­trambi, subúrbio do Rio de Janeiro.
Em 2000, os destinos das duas se cruzaram. Letícia, hoje com 24 anos, já havia testado tudo que o mercado oferecia quando foi conhecer o instituto que havia mudado a vida de uma amiga. Não que acreditasse que aquilo funcionaria. Era desespero mesmo.

Não estamos falando de nenhuma igreja nem tratamento milagroso. Apenas do salão de cabeleireiro Beleza Natural, fun­da­do por Zica em 1993, com o objetivo de realçar os cachos de seus clientes – maioria inclusa nos 66% dos brasileiros que têm cabe­los crespos*. Lá, é proibida a entrada de alisantes, na contramão não apenas da maioria das casas especializadas, mas também do que vemos na TV, em revistas e até em conselhos de amigas: “Ai, por que não faz uma escova definitiva?”. Para dar uma ideia da ousadia de Zica, 95% das clientes do Jacques Janine, maior rede da América do Sul, com 60 lojas, vai atrás de algum tipo de alisamento. Mesmo assim, ela não se abala. “Vai contra nossos princípios”, decreta do alto de seus 48 anos e centenas de cachos.

O boicote à chapi­nha é apenas a porta de entrada do salão, que parece a fan­tástica fábrica de... cachos, misturada com a li­nha de pro­dução do McDonald’s. Tem até uma área para crianças, decorada com ima­gens da Zi­quinha, uma espécie de versão femi­nina do Ronald, o Mc­Do­­nald.

Mas quando Zica misturou subs­tân­cias químicas usadas na composição de ali­­­­santes, à procura de uma fórmula que des­se jeito em seu cabelo “pixaim”, nem ima­ginava se tornar empresária. Hoje, ela comanda 800 funcionários em oito uni­dades no Rio, encarregados de satifazer 60 mil clientes por mês (o Jac­ques Ja­nine atende 120 mil e o Soho, 40 mil). Uma fi­lial do salão de Zica recebeu mil pes­­soas num dia (no Soho, uma funcio­ná­ria afirma atenderem, no máximo, 250).

Ela resolveu fabricar o próprio produto depois de uns tan­­­tos cursos de cabeleireira que fez, na esperança de des­co­brir como deixar seus cachos balançarem. Convenceu representantes de mar­cas de cremes para cabelo crespo – que iam aos cursos na esperança de vendê-los – a lhe fornecerem amostras das matérias-primas dos produtos. A partir de então, fez diversas com­­bina­ções, até que um dia, dez anos depois, uma vizinha elogiou seu cabelo. “Nunca tinha ouvido nada parecido”, confessa.

Cachos em série
Mas antes chamou um químico para des­­vendar a po­ção mági­ca. “Foram tantas mis­turas, que eu não sabia o que tinha fei­­­to”, diz ela, hoje no comando de sua pró­­pria fábrica. Essa primeira mistura de Zi­ca com alguns avanços agora chama Su­per-re­la­xan­te e é o carro-chefe de uma das dez maio­­res empresas brasileiras do ramo (em número de filiais e de clientes por mês). Do subúrbio à zona sul do Rio (a loja mais nova foi aberta em Ipa­­nema em 2008), o sa­lão é cada vez mais aprovado por mulheres classe mé­dia, de cabelos ondulados, enca­ra­co­la­dos ou encarapinhados. En­­tre elas, a pró­­pria Le­­tí­cia, que cursa uma fa­culda­de par­ticular. “Toda mi­nha família tem cabelo liso, só eu fui premiada”, brinca.

Páginas: « anterior | 1 | 2 | 3 | próximos »